Classificação de Child-Pugh

Avalia a gravidade da cirrose hepática combinando dois dados clínicos e três laboratoriais, e define a classe funcional A, B ou C.

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Exames e achados clínicos
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Para que serve

A classificação de Child-Pugh mede a gravidade da cirrose hepática a partir de cinco parâmetros: bilirrubina, albumina, INR, ascite e encefalopatia. Esta página apresenta a pontuação publicada em caráter educacional.

Como interpretar o resultado

Cada parâmetro recebe de 1 a 3 pontos, totalizando de 5 a 15. O total define a classe: A (5 a 6), cirrose bem compensada; B (7 a 9), comprometimento significativo; e C (10 a 15), doença descompensada, com a pior sobrevida.

População validada

A versão original publicada por Pugh e colaboradores (1973) foi descrita em uma série de 38 pacientes com varizes esofágicas sangrantes submetidos à transecção esofágica, em sua maioria cirróticos por etiologia alcoólica e pós-hepatítica. A literatura subsequente estendeu seu uso para cirrose de diversas etiologias (viral, alcoólica, autoimune, biliar) em adultos de ambos os sexos, descrita predominantemente em populações europeias e norte-americanas. Publica-se que a graduação tem desempenho limitado em hepatopatia colestática crônica avançada (CBP/CEP), nos quais a hiperbilirrubinemia é parte da fisiopatologia de base, e que o critério não foi validado para uso pediátrico.

Entradas, unidades e conversões

A pontuação combina três variáveis laboratoriais — bilirrubina total (mg/dL; 1 mg/dL ≈ 17,1 µmol/L), albumina sérica (g/dL; 1 g/dL = 10 g/L) e INR (adimensional, derivado do TP) — e duas variáveis clínicas categóricas — ascite (ausente / leve / moderada a tensa) e encefalopatia hepática (ausente / graus I-II / graus III-IV). Faixas plausíveis: bilirrubina 0,2-40 mg/dL; albumina 1,0-5,5 g/dL; INR 0,8-10. Valores fora destes intervalos costumam indicar erro de digitação ou unidade trocada.

Fórmula e cálculo passo a passo

A fórmula original atribui pontos por faixa em cada um dos cinco parâmetros e soma o total:

Pontuação por parâmetro (1, 2 ou 3 pontos):

  • Bilirrubina (mg/dL): <2 = 1 · 2-3 = 2 · >3 = 3
  • Albumina (g/dL): >3,5 = 1 · 2,8-3,5 = 2 · <2,8 = 3
  • INR: <1,7 = 1 · 1,7-2,3 = 2 · >2,3 = 3
  • Ascite: ausente = 1 · leve = 2 · moderada/tensa = 3
  • Encefalopatia: ausente = 1 · graus I-II = 2 · graus III-IV = 3

Total = soma dos cinco pontos (faixa 5-15) → Classe A: 5-6 · Classe B: 7-9 · Classe C: 10-15.

Exemplo trabalhado: paciente com bilirrubina 2,5 mg/dL (2 pts), albumina 3,0 g/dL (2 pts), INR 2,0 (2 pts), ascite leve (2 pts) e encefalopatia ausente (1 pt) → 2+2+2+2+1 = 9 pontos = Classe B.

Limitações conhecidas

A literatura descreve várias limitações: (1) os pontos de corte são fixos, de modo que dois pacientes com bilirrubinas muito diferentes (p.ex. 4 e 30 mg/dL) recebem a mesma pontuação máxima; (2) ascite e encefalopatia são variáveis subjetivas, com concordância interobservador limitada; (3) o uso de diuréticos pode mascarar a gravidade real da ascite; (4) a hipoalbuminemia pode refletir desnutrição ou perda renal/entérica não-hepática; (5) o INR sofre variação interlaboratorial em pacientes cirróticos, e a anticoagulação oral invalida o parâmetro. Publica-se que, para alocação de transplante hepático, o MELD-Na suplantou o Child-Pugh por usar apenas variáveis objetivas e contínuas.

Fórmulas alternativas e comparação

Os principais escores concorrentes são o MELD (Kamath, 2000) e sua variante MELD-Na (Kim, 2008), que combinam bilirrubina, INR, creatinina e sódio em equação logarítmica contínua. A literatura descreve o MELD-Na como superior ao Child-Pugh para predição de mortalidade em 3 meses em lista de transplante. Estudos validaram o ALBI (Albumin-Bilirubin, Johnson 2015) como alternativa objetiva no hepatocarcinoma. O Child-Pugh permanece descrito como referência para estratificação de risco cirúrgico não-hepático e ajuste de fármacos.

Origem e versão

A pontuação foi proposta por Pugh, Murray-Lyon, Dawson, Pietroni e Williams no British Journal of Surgery em 1973 (DOI 10.1002/bjs.1800600817), como modificação do critério original de Child e Turcotte (1964), que usava estado nutricional em vez de tempo de protrombina. Esta página implementa a versão de Pugh com INR substituindo o tempo de protrombina em segundos, conforme uso publicado contemporâneo.

Casos de teste

Cenários verificados contra a tabela publicada:

  • Caso 1: bilirrubina 1,5 · albumina 4,0 · INR 1,2 · sem ascite · sem encefalopatia → 1+1+1+1+1 = 5 pts, Classe A.
  • Caso 2: bilirrubina 2,5 · albumina 3,0 · INR 2,0 · ascite leve · sem encefalopatia → 9 pts, Classe B.
  • Caso 3: bilirrubina 4,0 · albumina 2,5 · INR 2,5 · ascite moderada · encefalopatia III-IV → 3+3+3+3+3 = 15 pts, Classe C.

Verificada contra exemplos em Pugh et al. (1973); reporte discrepâncias pelo e-mail no rodapé editorial.

FAQ

O que faço se o resultado parecer errado? Confira unidades (bilirrubina em mg/dL, não µmol/L; albumina em g/dL, não g/L), revise a categoria escolhida para ascite/encefalopatia e confirme se o INR foi digitado com a vírgula correta. Use o botão "Preencher com exemplo" para comparar.

Posso usar em paciente com colestase crônica (CBP/CEP)? A literatura descreve desempenho reduzido do escore nessas etiologias, pois a hiperbilirrubinemia compõe a doença de base e infla o componente bilirrubina.

Por que esta fórmula em vez do MELD-Na? Publica-se que o Child-Pugh permanece útil para risco cirúrgico não-hepático, ajuste de dose de fármacos e estratificação clínica geral, enquanto o MELD-Na é descrito como padrão para alocação de transplante.

O escore se aplica a pacientes anticoagulados? Não. A literatura descreve que warfarina/DOACs alteram o INR independentemente da função hepática, invalidando o componente.

Componentes em parte subjetivos

A graduação da ascite e da encefalopatia depende da avaliação clínica e pode variar entre examinadores. Para alocação de transplante, o MELD-Na costuma ser preferido por usar apenas variáveis objetivas.

Referências

  1. Pugh RNH, Murray-Lyon IM, Dawson JL, Pietroni MC, Williams R. Transection of the oesophagus for bleeding oesophageal varices. British Journal of Surgery. 1973;60(8):646-649. doi:10.1002/bjs.1800600817. PMID 4541913.