Para que serve
A fração de excreção de sódio (FeNa) indica a proporção do sódio filtrado pelos rins que é eliminada na urina. Na investigação da lesão renal aguda, a literatura descreve seu uso para diferenciar uma causa pré-renal (rim íntegro retendo sódio em resposta à hipoperfusão) de uma necrose tubular aguda (túbulos lesados, incapazes de reabsorver sódio).
Como interpretar o resultado
O resultado é expresso em porcentagem. As faixas descritas pelos estudos originais são:
| FeNa | Interpretação |
|---|---|
| Abaixo de 1% | Padrão pré-renal |
| 1% a 2% | Faixa intermediária |
| Acima de 2% | Padrão de necrose tubular aguda |
População validada
A FeNa foi originalmente derivada por Espinel (JAMA, 1976) em uma série de 17 adultos com lesão renal aguda oligúrica, na qual o ponto de corte de 1% separou os casos pré-renais (todos com FeNa < 1%) dos casos de necrose tubular aguda (todos com FeNa > 1%). Steiner (1984) e séries posteriores publicaram a aplicação em adultos hospitalizados com LRA oligúrica de instalação recente. A literatura descreve limitações em pacientes com doença renal crônica de base, glomerulonefrites, sepse, cirrose e em uso de diuréticos, bem como casuísticas pediátricas e neonatais menores e menos consistentes.
Entradas, unidades e conversões
São quatro entradas: sódio sérico (mEq/L; faixa plausível 120–160), sódio urinário (mEq/L; faixa plausível 1–250), creatinina sérica (mg/dL; faixa plausível 0,3–15) e creatinina urinária (mg/dL; faixa plausível 5–400). Por ser uma razão adimensional, a fórmula tolera unidades consistentes entre sérico e urinário; se creatinina vier em µmol/L, publica-se a divisão por 88,4 para conversão a mg/dL.
Fórmula e cálculo passo a passo
Onde Na urinário e Na sérico são as concentrações de sódio na urina e no sangue; Cr urinária e Cr sérica são as concentrações de creatinina nos dois compartimentos. A sequência publicada por Espinel é: (1) multiplicar Na urinário pela Cr sérica; (2) multiplicar Na sérico pela Cr urinária; (3) dividir o primeiro produto pelo segundo; (4) multiplicar por 100. Exemplo trabalhado: com Na sérico 140 mEq/L, Na urinário 20 mEq/L, Cr sérica 2 mg/dL e Cr urinária 40 mg/dL — numerador = 20 × 2 = 40; denominador = 140 × 40 = 5600; razão = 40 ÷ 5600 ≈ 0,00714; FeNa ≈ 0,71%, abaixo de 1%, dentro da faixa que a literatura classifica como padrão pré-renal.
Limitações conhecidas
Steiner (1984) e revisões posteriores descrevem que o ponto de corte de 1% perde acurácia em diversas situações: uso recente de diuréticos (a natriurese forçada eleva o sódio urinário e pode produzir FeNa > 1% mesmo em quadro pré-renal); doença renal crônica de base (excreção tubular de sódio já elevada em condições basais); glomerulonefrites agudas, nefropatia por contraste e rabdomiólise (descritas com FeNa < 1% apesar de lesão parenquimatosa); sepse e cirrose (resultados intermediários e variáveis). Erros pré-analíticos comuns incluem coletas não pareadas (urina e sangue em momentos distantes), unidades trocadas e amostras de urina muito diluídas. A literatura indica que a FeNa é mais informativa quando aplicada em LRA oligúrica recente, sem diurético, sem nefropatia prévia significativa.
Fórmulas alternativas e comparação
A fração de excreção de ureia (FeUreia), descrita por Carvounis et al. (2002), substitui a creatinina pela ureia no cálculo; publicou-se que se mantém útil em pacientes em uso de diurético, com ponto de corte habitual < 35% para padrão pré-renal. A razão ureia/creatinina sérica (acima de 40:1 em mg/dL) também é descrita como pista pré-renal, ainda que menos específica. Em paciente em uso de diurético, a literatura descreve a FeUreia como alternativa preferida; fora desse contexto, a FeNa concentra a maior parte da validação histórica.
Origem e versão
A fórmula foi publicada por Carlos H. Espinel em 1976 no JAMA (236:579–581; doi:10.1001/jama.236.6.579), com refinamento interpretativo por Robert W. Steiner em 1984 no The American Journal of Medicine (77:699–702; doi:10.1016/0002-9343(84)90368-1). Esta calculadora implementa a versão original de Espinel, com as faixas de corte de 1% e 2% conforme descritas nas duas publicações.
Casos de teste
Três cenários verificados contra a fórmula original:
- Na sérico 140, Na urinário 20, Cr sérica 2, Cr urinária 40 → FeNa esperada ≈ 0,71% (padrão pré-renal).
- Na sérico 138, Na urinário 60, Cr sérica 3, Cr urinária 30 → FeNa esperada ≈ 4,35% (padrão NTA).
- Na sérico 142, Na urinário 30, Cr sérica 1,5, Cr urinária 35 → FeNa esperada ≈ 0,91% (faixa pré-renal, próximo do limite).
Cálculos verificados contra os exemplos publicados em Espinel (1976) e Steiner (1984); reporte discrepâncias para viniciusvianna1608@gmail.com.
Perguntas frequentes
O que faço se o resultado parecer errado? Confira se as quatro entradas estão nas unidades indicadas (sódio em mEq/L, creatinina em mg/dL) e se a urina e o sangue foram coletados em momentos próximos; resultados implausíveis em geral derivam de unidades trocadas ou amostras não pareadas.
Posso usar em paciente em uso de diurético? A literatura descreve perda de acurácia da FeNa nesse contexto, com a FeUreia descrita como alternativa estudada para esse cenário (Carvounis 2002).
Posso usar em criança? As séries pediátricas publicadas são menores e menos consistentes; os pontos de corte de 1%/2% derivam de adultos com LRA oligúrica.
Por que esta fórmula e não outra? A FeNa é o índice de excreção de sódio com a maior base histórica de validação na diferenciação pré-renal vs NTA; a FeUreia foi descrita posteriormente para contextos onde a FeNa perde acurácia, sobretudo o uso de diuréticos.
FeNa abaixo de 1% sempre significa pré-renal? Não — a literatura descreve FeNa < 1% também em glomerulonefrites agudas, nefropatia por contraste e rabdomiólise.
A literatura descreve que a FeNa não é confiável após o uso de diuréticos, que aumentam a excreção de sódio e podem elevar falsamente o resultado. Nesses casos, e em situações como doença renal crônica ou glomerulonefrites, publica-se o uso da fração de excreção de ureia (FeUreia) e da avaliação clínica completa.
Referências
- Espinel CH. The FeNa test: use in the differential diagnosis of acute renal failure. JAMA. 1976;236(6):579-581. doi:10.1001/jama.236.6.579. PMID 947239.
- Steiner RW. Interpreting the fractional excretion of sodium. The American Journal of Medicine. 1984;77(4):699-702. doi:10.1016/0002-9343(84)90368-1. PMID 6486145.
- Carvounis CP, Nisar S, Guro-Razuman S. Significance of the fractional excretion of urea in the differential diagnosis of acute renal failure. Kidney International. 2002;62(6):2223-2229. doi:10.1046/j.1523-1755.2002.00683.x. PMID 12427149.