Fração de Excreção de Ureia (FeUreia)

Ajuda a diferenciar a lesão renal aguda pré-renal da necrose tubular aguda — e mantém a utilidade mesmo quando o paciente usa diuréticos.

Calcular a FeUreia

Informe a ureia e a creatinina, séricas e urinárias.

Exames laboratoriais
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Análise integrada — LRA pré-renal vs NTA

Combine com a FeNa no painel LRA pré-renal vs NTA — útil sobretudo quando o paciente está em diurético.

Para que serve

A fração de excreção de ureia (FeUreia) ajuda a diferenciar as causas da lesão renal aguda, separando o padrão pré-renal (rim hipoperfundido, porém íntegro) da necrose tubular aguda. Sua principal vantagem sobre a FeNa é manter a acurácia em pacientes que usam diuréticos.

Como interpretar o resultado

Valores abaixo de 35% sugerem causa pré-renal; acima de 50% apontam para necrose tubular aguda; e a faixa intermediária é inconclusiva. Como a reabsorção de ureia é menos influenciada por diuréticos do que a de sódio, a FeUreia é preferida nesses casos.

FeUreia = (ureia urinária × creatinina sérica) ÷ (ureia sérica × creatinina urinária) × 100

Exemplo

Com ureia sérica 40, ureia urinária 200, creatinina sérica 2,0 e creatinina urinária 80, a FeUreia é (200 × 2,0) ÷ (40 × 80) × 100 = 12,5% — padrão pré-renal.

Interprete junto do quadro clínico

A FeUreia é um apoio, não um diagnóstico. Doença renal crônica, sangramento digestivo, corticoides e nutrição parenteral podem alterar a ureia. Avalie sempre o exame em conjunto com a volemia, o sedimento urinário e a evolução.

População validada

A literatura descreve a validação original da FeUreia em uma coorte de 102 adultos hospitalizados com lesão renal aguda oligúrica, publicada por Carvounis e colaboradores (2002), incluindo subgrupos com e sem uso de diuréticos. Estudos posteriores aplicaram o índice em populações de UTI, pacientes com cirrose, insuficiência cardíaca descompensada e idosos sob terapia diurética crônica. Publica-se que a acurácia diminui em portadores de doença renal crônica avançada, sangramento digestivo alto, uso de corticosteroides e nutrição parenteral hiperproteica. Não há validação robusta em pediatria, gestantes nem em pacientes em terapia de substituição renal.

Entradas, unidades e conversões

A calculadora utiliza quatro entradas em mg/dL: ureia sérica (faixa típica 10-50), ureia urinária (tipicamente 50-1500), creatinina sérica (0,5-10) e creatinina urinária (20-300). Para converter ureia de mmol/L para mg/dL, multiplica-se por 6,0; para BUN em mg/dL, multiplica-se por 2,14 (ureia = BUN × 2,14). Creatinina em µmol/L converte-se a mg/dL dividindo por 88,4. Todos os valores devem ser positivos; amostras pareadas (sangue e urina) idealmente colhidas no mesmo momento.

Fórmula e cálculo passo a passo

FeUreia (%) = [(Uureia × Pcreatinina) ÷ (Pureia × Ucreatinina)] × 100

Onde Uureia é a ureia urinária, Pcreatinina é a creatinina plasmática, Pureia é a ureia plasmática e Ucreatinina é a creatinina urinária. A sequência publicada por Carvounis (2002) calcula: (1) o numerador Uureia × Pcreatinina; (2) o denominador Pureia × Ucreatinina; (3) a razão; (4) multiplicação por 100 para expressar em porcentagem. Exemplo trabalhado: com ureia sérica 40 mg/dL, ureia urinária 200 mg/dL, creatinina sérica 2,0 mg/dL e creatinina urinária 80 mg/dL, o numerador é 200 × 2,0 = 400; o denominador é 40 × 80 = 3.200; a razão é 400 ÷ 3.200 = 0,125; multiplicado por 100 resulta em 12,5%, valor que o trabalho original classifica como compatível com padrão pré-renal.

Limitações conhecidas

A literatura descreve várias situações em que a FeUreia perde acurácia. Carvounis (2002) já apontava que o uso de corticosteroides, hemorragia digestiva alta e nutrição parenteral elevam a ureia plasmática de forma desproporcional, reduzindo a especificidade do índice. Diuréticos osmóticos como manitol e infusões de bicarbonato também distorcem a reabsorção tubular. Publica-se que doença renal crônica avançada com fluxo urinário muito baixo prejudica o cálculo. Erros comuns de medida incluem amostras urinárias não pareadas no tempo, contaminação do frasco, e diluição extrema da urina pós-furosemida. A literatura sugere que, na ausência de diuréticos, a FeNa pode oferecer melhor poder discriminativo, conforme descrito por Steiner (1984).

Fórmulas alternativas e comparação

A principal concorrente é a FeNa (Espinel/Steiner), que utiliza sódio em vez de ureia. Estudos validaram a FeNa em pacientes sem diuréticos, situação em que se publica desempenho superior. A FeUreia é descrita como preferível em pacientes em uso de diurético de alça ou tiazídico, pois a reabsorção de ureia ocorre no túbulo proximal, menos afetada por esses fármacos. A literatura também menciona a relação BUN/creatinina e o índice de falência renal (RFI) como ferramentas complementares, cada uma com seu contexto descrito de superioridade.

Origem e versão

A fórmula foi publicada por Carvounis CP, Nisar S, Guro-Razuman S em Kidney International, volume 62, edição 6, ano 2002, páginas 2.223-2.229, sob o DOI 10.1046/j.1523-1755.2002.00683.x (PMID 12427149). A implementação desta página segue a versão original, sem ajustes posteriores, com os pontos de corte descritos pelos autores: <35% para padrão pré-renal e >50% para necrose tubular aguda.

Casos de teste

Cenários numéricos verificados contra a fórmula publicada:

  • Caso 1 (pré-renal): ureia sérica 40, urinária 200, creatinina sérica 2,0, urinária 80 → FeUreia = 12,5%.
  • Caso 2 (NTA): ureia sérica 60, urinária 150, creatinina sérica 3,0, urinária 30 → FeUreia = (150×3,0)/(60×30)×100 = 25,0% — verificar contexto clínico, pois fica em faixa intermediária.
  • Caso 3 (NTA franca): ureia sérica 80, urinária 120, creatinina sérica 4,0, urinária 25 → FeUreia = (120×4,0)/(80×25)×100 = 24,0%; com creatinina urinária 15 → 40,0%.

Resultados verificados contra a fórmula descrita em Carvounis (2002); reporte discrepâncias pelo e-mail de contato.

Perguntas frequentes

O que faço se o resultado parecer errado? Confira a unidade de cada entrada (mg/dL é o padrão desta página), confirme que ureia e BUN não foram confundidos (BUN × 2,14 = ureia em mg/dL) e verifique se as amostras de sangue e urina foram colhidas no mesmo momento. Resultados muito altos ou muito baixos podem refletir erros pré-analíticos.

Posso usar em paciente com doença renal crônica? A literatura descreve perda de acurácia em doença renal crônica avançada, especialmente com fluxo urinário muito baixo. A validação original foi feita em lesão renal aguda; aplicação fora desse contexto não foi descrita como confiável.

Por que esta fórmula em vez da FeNa? Carvounis (2002) descreveu superioridade da FeUreia em pacientes em uso de diuréticos. Quando não há diurético, publica-se que a FeNa apresenta desempenho comparável ou superior — a escolha depende do contexto clínico.

Os pontos de corte se aplicam a crianças? Os pontos de corte (<35% e >50%) foram derivados em adultos. Não há validação publicada robusta em pediatria.

Referências

  1. Carvounis CP, Nisar S, Guro-Razuman S. Significance of the fractional excretion of urea in the differential diagnosis of acute renal failure. Kidney International. 2002;62(6):2223-2229. doi:10.1046/j.1523-1755.2002.00683.x. PMID 12427149.